Quando ela entrou no carro e abanou pra mim da janela senti um nó estranho na garganta.
Minha mãe nunca foi de muito papo, de beijos e grandes conversas maternais. Ela nunca me chamou de princesa e nem disse que me amava repetidas vezes. Nem de longe me lembra ou já lembrou um personagem de malhação. Às vezes eu sentia raiva por isso. Às vezes queria que ela elogiasse alguma coisa em mim. Era só uma coisa boba, de ver ela me levar na escola, ou aquela coisa toda de festa de 15 anos que eu desejava e que nunca aconteceu.
Ela sempre lutou, lutou por tudo, por mim, pelos meus irmãos e por ela mesma. Pra sobreviver, sobreviver apesar de todas as cicatrizes.
Cresci enxergando como ela é forte. Forte de um jeito que eu jamais serei. Nós três crescendo e ela sendo precisa, em todos os detalhes. Tanto que em alguns momentos eu esquecia que não tinha meu pai em casa.
Sempre tive a sensação que ela queria estar em outro lugar. Às vezes ela contava histórias do meu avô, da fazenda onde moravam, dos bailes, da praça na pequena cidadezinha onde cresceu e de seus 15 anos e eu tinha impressão que era ali que ela gostaria de estar. Parada no tempo.
Às vezes eu forçava esse tipo de conversa, colocava uma musica do Erasmo Carlos pra tocar e dizia “mãe a senhora se lembra dessa?” Ou comentava alguma coisa sobre as historias já contadas “ele abriu mesmo o guarda-chuva, à noite? Em plena praça?” Só pra ouvir ela contar tudo de novo, e ver aquele sorriso tímido aparecer.
Sempre, sempre mesmo eu enxerguei nos olhos dela a frustração de não ser quem ela gostaria que fosse. E às vezes, até hoje, eu tenho vontade de sentar no seu colo e dizer: “você foi o melhor que podia ser, e eu sou muito grata por isso.”
Mas ela não ia escutar, ela ia dizer que podia ser melhor, que escolheu o pai errado pra gente, que sempre vai faltar alguma coisa e que não vai poder mudar isso.
Quando a gente descobriu a coisa toda da doença, do tratamento, da cirurgia, eu mal conseguia fazer meus joelhos pararem de bater um contra o outro, senti cada fio de cabelo do meu corpo arrepiado e em pânico. Não era só uma dor interna, era uma coisa física. Algo que eu nunca vou conseguir explicar.
Não consigo imaginar ser alguma coisa, sem ser por ela. Não consigo imaginar sentir vontade de chorar, chorar feito criança, chorar com as minhas crises de solidão, e não saber que ela está bem ali no quarto ao lado.
Hoje quando ela entrou naquele carro, para ficar longe por quatro dias, e abanou sorrindo pra mim, foi como se eu tivesse levado um soco na nuca. Aquela dor física, intensa e desconcertante estava ali me mostrando o que uma ausência é capaz de causar. E eu me forcei a lembrar que eu iria ficar longe dela apenas por um intervalo de tempo. E que será assim durante muito tempo.
Impossível não se emocionar de alguma maneira.
ResponderExcluirNos primeiros trechos, me vêm aquela sensação de que apesar de pessoas diferentes, o amor e o carinho de uma mãe ao filho é semelhante, mesmo que a maneira que se mostre esse afeto possa ser diferente.
E pra vocês deve ficar a sensação de que a guerreira não abandonará a luta agora. E de que os poucos dias distante, serão compensados com longos anos a mais ao lado da heroína.
Sinto muito! Torço para que tudo fique bem.
ResponderExcluir(um abraço)