"Todo o amor que houver nesta vida e algum remédio que me dê alegria..."

domingo, 18 de março de 2012



Dias de transformação.

Noites de ardência.

Tempo de perceber o valor das coisas.

Exercitar a renovação da esperança por ser uma virtude necessária.

Olhar ao redor e ver tudo exatamente igual, com o agravante de saber que tudo está diferente.

Tempo de compreender que aborrecimentos inúteis são apenas aborrecimentos inúteis.

Tempo de parar de correr. De sentir os milésimos de segundo.

Olhar nos olhos dos meus com sinceridade e um pouquinho de aflição por querer leva-los comigo.

Tempo de fazer perguntas ao infinito.

Tempo de manter os pés na terra e os olhos no horizonte.

Tempo, tempo, tempo...




sábado, 24 de dezembro de 2011

Quando ela entrou no carro e abanou pra mim da janela senti um nó estranho na garganta.
Minha mãe nunca foi de muito papo, de beijos e grandes conversas maternais. Ela nunca me chamou de princesa e nem disse que me amava repetidas vezes. Nem de longe me lembra ou já lembrou um personagem de malhação. Às vezes eu sentia raiva por isso. Às vezes queria que ela elogiasse alguma coisa em mim. Era só uma coisa boba, de ver ela me levar na escola, ou aquela coisa toda de festa de 15 anos que eu desejava e que nunca aconteceu.
Ela sempre lutou, lutou por tudo, por mim, pelos meus irmãos e por ela mesma. Pra sobreviver, sobreviver apesar de todas as cicatrizes.
Cresci enxergando como ela é forte. Forte de um jeito que eu jamais serei. Nós três crescendo e ela sendo precisa, em todos os detalhes. Tanto que em alguns momentos eu esquecia que não tinha meu pai em casa.
Sempre tive a sensação que ela queria estar em outro lugar. Às vezes ela contava histórias do meu avô, da fazenda onde moravam, dos bailes, da praça na pequena cidadezinha onde cresceu e de seus 15 anos e eu tinha impressão que era ali que ela gostaria de estar. Parada no tempo.
Às vezes eu forçava esse tipo de conversa, colocava uma musica do Erasmo Carlos pra tocar e dizia “mãe a senhora se lembra dessa?” Ou comentava alguma coisa sobre as historias já contadas “ele abriu mesmo o guarda-chuva, à noite? Em plena praça?” Só pra ouvir ela contar tudo de novo, e ver aquele sorriso tímido aparecer.
Sempre, sempre mesmo eu enxerguei nos olhos dela a frustração de não ser quem ela gostaria que fosse. E às vezes, até hoje, eu tenho vontade de sentar no seu colo e dizer: “você foi o melhor que podia ser, e eu sou muito grata por isso.”
Mas ela não ia escutar, ela ia dizer que podia ser melhor, que escolheu o pai errado pra gente, que sempre vai faltar alguma coisa e que não vai poder mudar isso.
Quando a gente descobriu a coisa toda da doença, do tratamento, da cirurgia, eu mal conseguia fazer meus joelhos pararem de bater um contra o outro, senti cada fio de cabelo do meu corpo arrepiado e em pânico. Não era só uma dor interna, era uma coisa física. Algo que eu nunca vou conseguir explicar.
Não consigo imaginar ser alguma coisa, sem ser por ela. Não consigo imaginar sentir vontade de chorar, chorar feito criança, chorar com as minhas crises de solidão, e não saber que ela está bem ali no quarto ao lado.
Hoje quando ela entrou naquele carro, para ficar longe por quatro dias, e abanou sorrindo pra mim, foi como se eu tivesse levado um soco na nuca. Aquela dor física, intensa e desconcertante estava ali me mostrando o que uma ausência é capaz de causar. E eu me forcei a lembrar que eu iria ficar longe dela apenas por um intervalo de tempo. E que será assim durante muito tempo.

domingo, 14 de agosto de 2011

Penso noventa e nove vezes e nada descubro; deixo de pensar, mergulho em profundo silêncio - e eis que a verdade me revela. (Albert Einsten)

O mal mora dentro de cada um de nós.
É fácil ser ruim.
O bem exige sacrifício. Renúncia. Disposição. Cansaço.
Exige esquecimento. E nunca haverá de ser fácil esquecer-se de si.
O mal transborda como um animal procurando ar na superfície
Ele não exige nada, apenas espera. Espera a entrega total. O fim do jogo, o desempate. O bem sendo afogado.
Não há uma só molécula no ar que ache que ser bom é mais fácil que ser ruim. Que não lute todos os dias pra não dilatar sua opinião, pra não enfiar o dedo, pra não fechar os olhos, pra não se deixar levar pela corrente. Que não queira aprender a ficar em silêncio.
Pois é, meu bem.
O silêncio. Ele batalha com classe.
E quando a vitória chegar, eu vou sorrir.

domingo, 24 de julho de 2011




A garça mora no morro durante o dia voa até a lagoa pra se alimentar. Não distingue feriados Natal, Ano Novo, Páscoa ou jogo de final. O seu relógio é o sol,seu calendário é a posição dos astros no mar sideral.
E vê a mãe que chora

O filho que comemora

A multidão calejada avançar

E vê a vela pra santa

O avião que levanta

A frente fria chegar e passar.

(A garça - Forfun)


Acordou e decidiu que daria um jeito em tudo aquilo.

Faria diferente. Deixaria se levar pelo mundo da não reflexão que tanto a cercava. Viveria um dia inteiro, 24 horas com mente e corpo independente.

Dançou infinitamente, contou e ouviu historias inacreditáveis, pediu mais algumas doses, achou interessante o Valium, fez sexo sem culpa, interessou-se e desistiu, riu dos casais da TV, convidou a arrogância para um passeio a dois, entrou na discussão,falou sem parar, venceu, debochou, esqueceu, quis mais um pouco e de repente passou.
Acordou.
E descobriu a solidão ainda inteira dentro de si, nem um centímetro cúbico a menos e percebeu que viver, definitivamente, não é pra amadores
.

domingo, 15 de maio de 2011



"E até hoje quem se lembra diz que não foi o caminhão, nem a curva fatal, e nem a explosão. Johny era fera demais pra vacilar assim, e o que dizem é que foi tudo por causa de um coração partido..um coração...

Bye..bye bye Johny..Johny bye bye...Bye bye Johny..."

( Dezesseis - Legião Urbana)


À você amigo...que me mostrou tantas coisas, de tantas maneiras... Saudades...


Oito anos se passaram.
Naquela época eu era uma adolescente de 14 anos com o peso do mundo nas costas.
Achava a rotina sem graça, a família chata, passava horas trancada no quarto com algumas amigas, as músicas favoritos, umas latas de cerveja escondidas, nossos sonhos, que se resumiam em acabar o colégio, começar a trabalhar, alugar um apartamento e morarmos todas juntas em um infinito mundo adolescente.
Acordar cedo, ir pra escola, encontrar as meninas, recortar uns astros de Rock das revistas pra enfeitar o caderno, comprar um all star de cano alto e virar as costas pra todo o resto era o que enfeitava nosso mundo.
O ano de 2003 começou e nenhuma de nós imaginava tudo que iria acontecer.
Quando ele entrou na sala de aula pela primeira vez, eu só o conhecia de vista. Nos anos anteriores ele era da outra turma. Tinha 16 anos, um tênis laranja que era impossível não ver, e um jeitão diferente que não dava pra ignorar.
Ele sentou atrás de mim e foi logo implicando com o meu cabelo, recém lavado, que pingava água na sua carteira. Em vez de ficar brava, foi simpatia a primeira vista. Depois daquele dia nos tornamos amigos.
Era inevitável isso acontecer, ele havia namorado a garota que se tornaria minha melhor amiga durante muitos anos, e eles estavam naquela fase de separação adolescente. Ela sofria e ficávamos um tempão conversando sobre ele.
Um dia, no começo de maio daquele ano, eu estava na frente da escola, sentindo muito frio, ai ele chegou e quando eu vi já estava com a blusa dele, que dava pra vestir três de mim. Ele era assim, não te dava muito tempo de pensar “coloca a blusa aí, agora, você ta tremendo”.
Às vezes, quando descíamos pra quadra da escola, ele ficava no canto fumando um cigarro, e escrevendo alguma coisa nas paredes, com aquele jeitão que não precisava dizer nada. Quando a aula acabava, algumas vezes, ele ficava perto da minha amiga e descia a rua toda abraçado com ela e ninguém precisava dizer nada.
Em uma manhã muito fria de maio decidimos não entrar na aula. A casa dela estava vazia e fomos para lá, com umas latas de cerveja, uma pinga barata, uma bolacha de chocolate e alguns cigarros. Ouvimos música a manha inteira, nós três e mais um amigo. Não estávamos bêbados, a quantidade de bebida que tínhamos não dava nem pra chegar perto disso, mas gostávamos de fingir que sim. E ficamos cantando e rindo de nós mesmos. Os dois se abraçaram, e de alguma forma, em algum subconsciente nós sabíamos que aquilo era uma despedida.
Voltei pra casa e fui surpreendida com uma baita bronca da minha mãe que tinha ido me buscar na escola.
No dia seguinte troquei duas palavras com ele descendo a escada da escola na hora de ir embora e foi a última vez que eu o vi.
Naquela noite, já estava deitada, quando alguém me chamou no portão. Não queria levantar porque estava muito frio. Com a blusa que ele tinha me emprestado dias atrás fui até a porta, e quando ouvi não pude acreditar “mas ele estava na escola hoje... como foi pra represa, esta muito frio... não dá pra nadar...”
Só me lembro de sair andando e chegar à rua dele...minha amiga veio correndo, me deu um abraço forte e disse que ele tinha ido embora...quase que instantaneamente alguém chegou segurando seu tênis laranja e dizendo que ele sentiu uma câimbra e não continuou nadando.
A dor no meu peito era tão forte que pensei que ia desmaiar, ela apertava a minha mão, e eu tentava assimilar as coisas.
Foi a noite mais longa da minha vida.
No outro dia, cheguei pro velório com uma sensação de irrealidade que só a morte é capaz de causar.
Passei meses escrevendo para ele, no auge do meu egoísmo, achava que se ele ia saber como o mundo estava, ia ser pelas minhas cartas.
Minha amiga e eu montamos um mundo particular onde ele ainda existia... Nem que fosse nas nossas lembranças. Passávamos horas relembrando o dia que matamos aula. Decoramos os diálogos, as roupas que cada um usava e repetíamos em nossa memória tudo, todo dia.
Nunca escrevi sobre isso.
Os anos se passaram, segui novos caminhos, tenho hoje novos sonhos, entrei na universidade, minha amiga até já se formou e por motivos diversos nós duas seguimos caminhos diferentes e faz mais ou menos um ano que eu não a vejo.
Mas nós duas sabemos que a nossa vida mudou completamente depois do inverno de 2003.
Sempre quando chega essa época do ano, eu penso nele e me pergunto onde ele estaria se estivesse aqui. E por que a vida faz planos que são tão difíceis de entender.
Faço um esforço enorme para me lembrar do rosto dele, mas só consigo visualizar uns traços, a voz e o tênis laranja. Apenas o sorriso está intacto na minha memória.
E ainda tenho a blusa...que hoje já não fica tão grande em mim...
E ainda tenho uma grande e dolorida saudade aqui dentro...
E eu espero que algum dia eu o vejo novamente nem que seja em um sonho bom e que ele ainda tenha o mesmo sorriso que está guardado na minha memória.
Até qualquer dia, amigo.

quinta-feira, 17 de março de 2011


De que são feitos os dias?
De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.
Entre mágoas sombrias,
Momentâneos lampejos:vagas felicidades,
inactuais esperanças.
De loucuras, de crimes,de pecados, de glórias
do medo que encadeia todas essas mudanças.
Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlacese
em sinistras alianças…
(Cecília Meireles)
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Conheci o Juan há mais ou menos um ano.
Hoje ele está com quatro.
Ele tem câncer, leucemia.
Faz quimioterapia uma vez por semana. Morre de medo de agulha. E sempre quis ter cabelo, agora que o cabelo começa a crescer sempre que me vê ele diz que quer ter o topete do Neymar.
É tímido, tem uma risada gostosa, adora chocolate, e morre de rir quando eu digo que ele é meu “princeso”.
Nos olhos dele é possível perceber que ele não faz a menor idéia do por que daquele procedimento repetido toda semana, envolvendo um lugar estranho, alguns enfermeiros e umas agulhas dolorosas.
A mãe dele também não entende.
Quando, raramente, converso com ela sobre a doença ela me diz que se apega em Deus. Acho natural. Ver uma criança sofrendo por uma doença da dimensão do câncer torna obrigatório o apego em alguma coisa ou então se endoida.
E acho também que Deus deve rir muito da nossa tentativa de tentar entender essas coisas.
Segundo publicação da Agência Internacional para pesquisa do Câncer (IARC 1998), a incidência de câncer em crianças brasileiras varia de 10 a 16 casos: 100 mil habitantes da mesma faixa etária.
Mas o Juan não entende de estatísticas, e a mãe dele não se interessa muito por elas. Pra ela existe uma criança que gosta de bola, de desenho e de chocolate que tem que lutar dia-a-dia contra uma coisa que ele nem sabe o que é. E ela tem que ta perto dele. Esta é a prioridade. Ponto. Nada de pequenos problemas. Nada de relatórios para serem entregues, nada de trânsito infernal, nada de tratamento dentário, nada de redes sociais ou de estréias de filmes comentados.
Ela o tem, e está por ele em uma luta diária.
E isso ele entende perfeitamente, porque ele olha pra ela toda vez que a enfermeira chega perto, com os olhinhos pedindo proteção e ela corresponde de um jeito de arrepiar. De desestruturar. De sentir. De chorar.
A gente luta pelo que julga saber, e essa ignorância me enche os olhos de lágrimas.
Danem-se meus problemas pessoais, meus monstros gigantes, minhas neuras. Existem coisas no universo que são maiores que tudo.
Quero que o Juan sinta uma fé enorme e alguma coisa qualquer bem bonita e que ele saiba sempre que as coisas do universo são maiores que tudo...

Portinari - Retirantes
"Quantas vezes tenho passado perto de um doente,
Perto de um louco, de um triste, de um miserável,
Sem lhes dar uma palavra de consolo.
Eu bem sei que minha vida é ligada à dos outros,
Que outros precisam de mim que preciso de Deus
Quantas criaturas terão esperado de mim
Apenas um olhar – que eu recusei."
O mau samaritano (Murilo Mendes)
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Os pobres (Olavo Bilac)
Aí vêm pelos caminhos,
Descalços, de pés no chão,
Os pobres que andam sozinhos,
Implorando compaixão.
Vivem sem cama e sem teto,
Na fome e na solidão:
Pedem um pouco de afeto,
Pedem um pouco de pão.
São tímidos? São covardes? Têm pejo? Têm confusão?
Parai quando os encontrardes,
E dai-lhes a vossa mão!
Guiai-lhe os tristes passos!
Dai-lhes, sem hesitação,
O apoio do vossos braços,
Metade de vosso pão!
Não receieis que, algum dia,
Vos assalte a ingratidão:
O prêmio está na alegria
Que tereis no coração.
Protegei os desgraçados,
Órfãos de toda a afeição:
E sereis abençoados
Por um pedaço de pão . .