
"E até hoje quem se lembra diz que não foi o caminhão, nem a curva fatal, e nem a explosão. Johny era fera demais pra vacilar assim, e o que dizem é que foi tudo por causa de um coração partido..um coração...
Bye..bye bye Johny..Johny bye bye...Bye bye Johny..."
( Dezesseis - Legião Urbana)
À você amigo...que me mostrou tantas coisas, de tantas maneiras... Saudades...
Oito anos se passaram.
Naquela época eu era uma adolescente de 14 anos com o peso do mundo nas costas.
Achava a rotina sem graça, a família chata, passava horas trancada no quarto com algumas amigas, as músicas favoritos, umas latas de cerveja escondidas, nossos sonhos, que se resumiam em acabar o colégio, começar a trabalhar, alugar um apartamento e morarmos todas juntas em um infinito mundo adolescente.
Acordar cedo, ir pra escola, encontrar as meninas, recortar uns astros de Rock das revistas pra enfeitar o caderno, comprar um all star de cano alto e virar as costas pra todo o resto era o que enfeitava nosso mundo.
O ano de 2003 começou e nenhuma de nós imaginava tudo que iria acontecer.
Quando ele entrou na sala de aula pela primeira vez, eu só o conhecia de vista. Nos anos anteriores ele era da outra turma. Tinha 16 anos, um tênis laranja que era impossível não ver, e um jeitão diferente que não dava pra ignorar.
Ele sentou atrás de mim e foi logo implicando com o meu cabelo, recém lavado, que pingava água na sua carteira. Em vez de ficar brava, foi simpatia a primeira vista. Depois daquele dia nos tornamos amigos.
Era inevitável isso acontecer, ele havia namorado a garota que se tornaria minha melhor amiga durante muitos anos, e eles estavam naquela fase de separação adolescente. Ela sofria e ficávamos um tempão conversando sobre ele.
Um dia, no começo de maio daquele ano, eu estava na frente da escola, sentindo muito frio, ai ele chegou e quando eu vi já estava com a blusa dele, que dava pra vestir três de mim. Ele era assim, não te dava muito tempo de pensar “coloca a blusa aí, agora, você ta tremendo”.
Às vezes, quando descíamos pra quadra da escola, ele ficava no canto fumando um cigarro, e escrevendo alguma coisa nas paredes, com aquele jeitão que não precisava dizer nada. Quando a aula acabava, algumas vezes, ele ficava perto da minha amiga e descia a rua toda abraçado com ela e ninguém precisava dizer nada.
Em uma manhã muito fria de maio decidimos não entrar na aula. A casa dela estava vazia e fomos para lá, com umas latas de cerveja, uma pinga barata, uma bolacha de chocolate e alguns cigarros. Ouvimos música a manha inteira, nós três e mais um amigo. Não estávamos bêbados, a quantidade de bebida que tínhamos não dava nem pra chegar perto disso, mas gostávamos de fingir que sim. E ficamos cantando e rindo de nós mesmos. Os dois se abraçaram, e de alguma forma, em algum subconsciente nós sabíamos que aquilo era uma despedida.
Voltei pra casa e fui surpreendida com uma baita bronca da minha mãe que tinha ido me buscar na escola.
No dia seguinte troquei duas palavras com ele descendo a escada da escola na hora de ir embora e foi a última vez que eu o vi.
Naquela noite, já estava deitada, quando alguém me chamou no portão. Não queria levantar porque estava muito frio. Com a blusa que ele tinha me emprestado dias atrás fui até a porta, e quando ouvi não pude acreditar “mas ele estava na escola hoje... como foi pra represa, esta muito frio... não dá pra nadar...”
Só me lembro de sair andando e chegar à rua dele...minha amiga veio correndo, me deu um abraço forte e disse que ele tinha ido embora...quase que instantaneamente alguém chegou segurando seu tênis laranja e dizendo que ele sentiu uma câimbra e não continuou nadando.
A dor no meu peito era tão forte que pensei que ia desmaiar, ela apertava a minha mão, e eu tentava assimilar as coisas.
Foi a noite mais longa da minha vida.
No outro dia, cheguei pro velório com uma sensação de irrealidade que só a morte é capaz de causar.
Passei meses escrevendo para ele, no auge do meu egoísmo, achava que se ele ia saber como o mundo estava, ia ser pelas minhas cartas.
Minha amiga e eu montamos um mundo particular onde ele ainda existia... Nem que fosse nas nossas lembranças. Passávamos horas relembrando o dia que matamos aula. Decoramos os diálogos, as roupas que cada um usava e repetíamos em nossa memória tudo, todo dia.
Nunca escrevi sobre isso.
Os anos se passaram, segui novos caminhos, tenho hoje novos sonhos, entrei na universidade, minha amiga até já se formou e por motivos diversos nós duas seguimos caminhos diferentes e faz mais ou menos um ano que eu não a vejo.
Mas nós duas sabemos que a nossa vida mudou completamente depois do inverno de 2003.
Sempre quando chega essa época do ano, eu penso nele e me pergunto onde ele estaria se estivesse aqui. E por que a vida faz planos que são tão difíceis de entender.
Faço um esforço enorme para me lembrar do rosto dele, mas só consigo visualizar uns traços, a voz e o tênis laranja. Apenas o sorriso está intacto na minha memória.
E ainda tenho a blusa...que hoje já não fica tão grande em mim...
E ainda tenho uma grande e dolorida saudade aqui dentro...
E eu espero que algum dia eu o vejo novamente nem que seja em um sonho bom e que ele ainda tenha o mesmo sorriso que está guardado na minha memória.
Até qualquer dia, amigo.